Separação do trigo para pão, massa e biscoito chega a mais de 50% da safra do RS

Segregação da produção, com a classificação do cereal conforme suas características e usos na indústria, é uma forma de valorizar o produto, que vem perdendo espaço nas lavouras gaúchas

Publicado em 25/06/2018

A maior liquidez e o preço superior do trigo não são as únicas vantagens da segregação da safra. Aos ganhos econômicos somam-se ainda vantagens agronômicas!

Foto: Divulgação ZH/Diogo Zanatta

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Enquanto a área de trigo encolhe no Rio Grande do Sul, com a previsão histórica inferior a 700 mil hectares cultivados, ganha força a segregação – uma forma de valorizar o produto. A separação conforme as características vem ajudando a dar liquidez ao cereal, além de maior retorno financeiro aos agricultores. A medida, que há dois anos abrangia menos de 15% da safra, já representa mais da metade do volume colhido no Estado.

 

"A segregação só funciona quando começa na lavoura e termina no recebimento. É um trabalho conjunto, cada vez mais estimulado por cooperativas, cerealistas e sementeiras", destaca Altair Hommerding, coordenador técnico da Câmara Setorial do Trigo no Estado.

 

O primeiro passo é a escolha das cultivares a serem semeadas. Em 2016, a câmara setorial classificou grupos de variedades com atributos semelhantes para atender demandas da indústria. "Conseguimos reduzir o número de cultivares no campo, priorizando as que têm maior aceitação pelos moinhos gaúchos", explica Hamilton Jardim, presidente da Comissão de Trigo da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul).

 

O retorno trazido pela segmentação ajudou a conter a queda da área semeada com o grão na propriedade da família Sella, em Carazinho, no norte do Estado. Neste safra, serão 130 hectares destinados à cultura. Há cinco anos, eram 300 hectares. Desde o ano passado, os irmãos Alécio e Ricardo Sella passaram a cultivar apenas cinco variedades – três de trigo pão, usados pela indústria de panificação, e duas de trigo melhorador, voltados a mercados mais exigentes. "Dessa forma, temos a compra garantida. Em anos anteriores, sempre havia desgaste na hora da venda, ficávamos dependendo de leilões do governo – conta Alécio, que concluiu a semeadura na última quarta-feira."

 

A escolha das variedades foi orientada pela Sementes Ross, de Não-Me-Toque, onde o agricultor entregará a safra de inverno. A segregação na empresa, que atua como cerealista e sementeira, começou em caráter experimental em 2015 – com 20% do trigo. Em 2016, o percentual pulou para 50% e, no ano passado, a Ross restringiu o recebimento somente para trigo classificado. "É uma maneira de tentar forçar o produtor a adotar a medida, valorizando o cereal no mercado e competindo com a qualidade argentina", explica Olmar Lanius, gestor de grãos da Sementes Ross. O estímulo para o produtor segregar a safra vem da remuneração maior pelo produto – de 10% a 12% acima do mercado, detalha Lanius: "Os moinhos pagam mais quando sabem exatamente o produto que estão recebendo."

 

As indústrias gaúchas industrializam cerca de 1,7 milhão de toneladas de trigo – das quais cerca de 70% são produzidas no Estado, segundo o Sindicato da Indústria do Trigo no Rio Grande do Sul (Sinditrigo). "Tem trigos e trigos, com características diferentes para pão, massas e biscoitos. O cenário ideal seria 100% da produção segregada", diz Diniz Furlan, presidente do Sinditrigo. 

 

As variedades de trigo forte, com w (força de glúten) acima de 250, são apropriadas para panificação. O trigo brando, com w inferior a 250, é usado em massas e biscoitos pela menor absorção de água.  A distinção das variedades é uma prática comum na Argentina e mais adiantada no Paraná – principal Estado produtor do cereal, na frente do Rio Grande do Sul. "É um caminho necessário para valorizar o cereal, dando maior liquidez a produtos que atendem às necessidades da indústria", conclui Furlan. 

 

Ganhos da classificação vão além do mercado

A maior liquidez e o preço superior do trigo não são as únicas vantagens da segregação da safra. Aos ganhos econômicos somam-se ainda vantagens agronômicas. "Em anos de frustração de safra, as perdas nas lavouras podem ser menores nas áreas com variedades selecionadas", afirma Tiago De Pauli, agronômico da Biotrigo. O técnico esclarece ainda que a segmentação não significa maior investimento, exigindo apenas zelo maior no controle da giberela, fungo que ataca as plantas em períodos úmidos e eleva o índice de micotoxina – impedindo o consumo do cereal por humanos e até animais. Os investimentos no trigo resultam ainda em ganhos indiretos para a lavoura de soja – plantada em cima da resteva do cereal.

 

"A rotação evita a erosão do solo e deixa residual importante para a cultura posterior, ajudando ainda a controlar as invasoras da soja", argumenta Claudio Doro, assistente técnico regional da Emater em Passo Fundo. A valorização do valor do grão nos últimos meses fez com que o órgão revisasse a projeção de área plantada no Estado, estimada agora em 668 mil hectares – redução de 3,35% em relação à safra passada. A queda inicial prevista era de 20%.

"O câmbio encareceu as importações e levou as indústrias a buscarem o produto no mercado interno, puxando o preço para cima", explica Doro. 

 

Farinha branqueadora é trunfo de cooperativa

Com cerca de 2 mil produtores de trigo associados, em 15 municípios da Região Noroeste, a Cooperativa Tritícola Mista Campo Novo (Cotricampo) conseguiu fazer com que a segregação fosse adotada em 100% da safra recebida. O estímulo veio após a construção de um novo moinho de farinha, ainda em 2012, com capacidade para beneficiar 1 milhão de sacas por ano. Desde então, a cooperativa passou a fomentar o plantio de um trigo branqueador, cerca de 20% da área, e sete variedades tipo pão, que somam os 80% restantes. O percentual é o mesmo da mistura feita entre farinhas de trigo clara e escura – alcançando a coloração buscada pela indústria. 

 

"A farinha branqueadora é o nosso grande trunfo. Com a mistura, conseguimos vender para 13 Estados brasileiros", conta Ricardo Corrêa Chassot, vice-presidente da Cotricampo, com sede no município de Campo Novo. 

 

Pelo trigo branqueador, a cooperativa consegue bonificar o agricultor em 15% a 20% a mais do que na variedade pão – que também alcança um bônus de 10% em relação ao mercado geral. Para diferenciar a safra entre trigo branqueador e pão, a Cotricampo precisou investir em moegas e armazéns separados. Além disso, fomentou a assistência técnica nas lavouras. "Nosso controle no campo é muito rigoroso. A semente, por exemplo, deve ser comprada na cooperativa, para garantir o uso da variedade específica", explica Chassot.

 

O retorno mostra que o investimento valeu a pena. Além dos mercados alcançados pelo moinho, a cooperativa conseguiu manter a área cultivada com o grão pelos associados – cerca de 60 mil hectares. "Aqui não tem desânimo em relação ao trigo. Só dependemos do tempo, o resto conseguimos controlar", finaliza o dirigente. 

Fonte: Gaúcha ZH

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